quarta-feira, 2 de novembro de 2016

É legítimo?


No meio dum dia sofrido no meio de lições esquecidas, disseram-me que a nossa vida só nós controlamos e que, se há algo por que estamos a sofrer, que temos que ter em conta se realmente vale a pena sofrer por isso ou se é apenas o nosso coração a iludir-nos. Mas que no meio de tudo, que não nos deixemos humilhar demais nem moldar demais, senão um dia olhamos para trás e perguntamo-nos como chegámos a esse ponto e nem nos reconhecemos mais. Que no entanto, só nós sabemos o que vale a pena e até quando vale a pena.

E no meio de um quarto escuro ainda consigo lembrar-me de choros, gritos e cheiros antigos. Ainda consigo sentir as cicatrizes antigas. E de cada vez que sofro, sofro por todas elas. E que de cada vez que me é feito sofrer, sofro em memória a quem deixei nas páginas de livros já lidos. O meu avô dizia que quando eu arranjasse um namorado a sério, que tinha que ser um homenzinho. Que tinha que ser alguém que me cuidasse e amasse. E ele abanava a cabeça como quem sabe que hoje em dia as pessoas se dão umas demais e outras de menos, mas que acabamos todos por mais cedo ou mais tarde já nem nos dar.

Não nos damos porque ficámos sofridos, em algumas das páginas e porque não fechámos o livro, porque talvez decidimos continuar a lê-lo independentemente do mal que nos estivesse a fazer, porque na altura não o reconhecíamos como mal, mas sim como uma hipótese de ver a história a mudar. Ficámos sofridos e pior que ficar sofrido é fazer sofrer. Fazer sofrer quem por nós travaria as maiores guerras e atravessaria os maiores desertos, pularia de estrela em estrela e mesmo de cara esmagada no chão, se levantaria para nos proteger. E daí vem o destino, o fazer doer a quem já doeu demais e o não conseguir evitar que não faça doer. Daí vêm corações partidos e mentes desacreditadas.

Escrevi algures que acredito em amores para a vida, no “felizes para sempre”, ainda que discutam, e que no meio de tanta promiscuidade, possa haver um homem em mil e uma mulher em mil que acreditem no amor e que esse homem e essa mulher um dia se possam encontrar. Mas também escrevi que o amor não existe hoje em dia. Que independentemente do que aconteça há sempre alguém melhor, mais bonito e mais acessível. E que tentar custa muito, que amar na verdadeira definição da palavra é quase que impensável. Já não se sente e já não se pensa. Costumo tentar acreditar que quando se gosta, se pode fazer crescer e se pode trabalhar em conjunto no que se tem. Porque ninguém rema contra a maré e porque para dançar o tango são precisos dois. Porque acredito que podemos sempre investir no que temos seja em nós ou em algo que seja nosso, ou a que possamos de algum modo chamar nosso. Nada de deitar fora nem trocar. O meu pai, ao longo do tempo em que vivi com ele, de toda a rara vez em que me ofereceu alguma coisa sempre fez questão de dizer que era a primeira e última vez que me dava o que quer que me estivesse a dar. Que se eu partisse, estragasse, perdesse ou fosse o que fosse, não voltaria a ter outro igual. Passou por brinquedos, livros, telemóveis, qualquer coisa que viesse dele. Fui ensinada com o culto do “estima para durar” acompanhado do “um dia vais dar valor” e do “para ti é”. Hoje em dia, percebo que esse culto realmente é uma forma de estar na vida. Tão depressa posso ganhar como posso perder. Passe por trabalho ou namoro, o que seja. Mas que, se eu fizer por e lutar por, as probabilidades de ser eu a ganhar serão maiores. E ele nem estava errado de todo, visto que, de todas as frases que ouvia do meu pai, hoje posso aplicar sempre uma para todas as situações, ainda que boas ou menos boas.

E então, o que acontece quando, depois de um coração partido por mil vezes, nos voltamos a dar a alguém, ainda que aos tropeços? Ainda que, por muito esforço que possamos fazer na viagem, nos tentemos dar o melhor inteiro de nós que consigamos arranjar, ainda que colado com cuspo? E o que acontece quando, o destino junta ou pensa que junta dois corações partidos? Será que é de alguma forma legítimo para connosco nos reservamos a certas coisas e afastarmos outras tantas? Fazer sofrer, ainda que inconscientemente, porque estamos ou fomos sofridos? Fazer pagar quem de nada culpa tem, por erros por outrens cometidos? Haverá algum livro de amor ou simplesmente de ajuda que nos indique o degrau a seguir? Como, se “cada um é como cada qual” e “as relações são todas diferentes”? Será que somente um sexto sentido e as energias interiores dão conta do cargo? Ou será, que sequer, alguma vez, um coração poderá ser reabilitado?

Respostas escassas para perguntas que a cada quarteirão se triplicam num dia em que de sofrido já não podia ter mais nada e que em nada um quarto escuro me poderia ajudar. E são mais as voltas e os cigarros que as conclusões. São mais os desassossegos de coração que a vontade de dormir à noite. É legítimo pagarmos pelo passado de alguém?

Sinceramente, a melhor definição de amor que alguma vez ouvi foi numa noite em que já nem me lembro como acabou. E honestamente nem me lembro da definição em si, mas sei que soou bonito.

Soou a algo sincero e de certo modo magoado. E porquê que tem que haver beleza naquilo que foi estragado? Ainda que de belo possa haver um olhar ou um sorriso aleatórios, que vêm inesperados, de alguém que julgamos não nos conseguir olhar ou sorrir em certas alturas porque de demónios têm o cérebro e o coração cheios?


Será que, ainda que por breves instantes, em algum universo paralelo, onde todas as matemáticas batam certo e todos os sentimentos sejam puros e bem desenhados, possa haver a pequena possibilidade de o meu eu não estar a ter um dia de merda?




Redigido por: SusanaCMMelo




sexta-feira, 29 de julho de 2016

Quis contar-te

Quis pegar em mim e mandar-te uma mensagem ou ligar-te.

Hesitar mas acabar por dizer-te que estava bem.

Que estava de uma vez por todas a seguir os meus sonhos, a fazer o que era melhor para mim.

Quis contar-te para onde estava a ir, que estava a fazer uma viagem de autocarro de horas e horas e que apenas levei uma mala.

Quis contar-te como é que consegui o dinheiro para deixar a nossa cidade, que trabalhei por horas e horas, dias e dias, sem folgas e com cansaço acumulado.

Quis contar-te que estive sozinha este tempo todo, que a vida sem ti resume-se a pouco.

Quis contar-te que apesar disso nunca desisti e que o que saiu de mim foi sempre o meu melhor.

Quis contar-te sobre tudo o que tinhas perdido.

Que as árvores que vejo fora da janela não parecem tão bonitas.

Que o barulho de outras pessoas à minha volta me incomoda mais que nunca.

Que o sol e a lua parece que perderam o brilho.

Quis contar-te que te odiei mas que guardei o que restou de ti.

Que sinto falta do teu sorriso.

Quis contar-te que tens o olhar mais bonito e encantador que já vi.

Quis contar-te tanta coisa, por gostar tanto de ti, ou da ideia de ti, que me esqueci de quem realmente és.

Encontrei-me para te perder.

Descobri-me para perceber que nem sei quem tu és.

E no final de tudo, pergunto-me como seria se eu ainda soubesse o quão bonitas são as árvores e as flores.

Se eu soubesse apreciar outros sorrisos.

Se eu pudesse gostar da ideia de outro alguém ou de mim mesma.

Pergunto-me, no meio de tudo, vendo a estrada e as árvores lá fora, bem por fora da janela, como seria se, ainda que por um segundo do pensamento, eu nunca tivesse gostado tanto de alguém, que não tivesse gostado tanto de mim.

E lembro-me, no meio de tudo, que nem sequer sei quem és.

E pergunto-me se a vida seria mais bonita se de vez em quando não amássemos, nunca tivéssemos amado ou nunca viéssemos a amar.

E lembro-me que, não há coisa nenhuma no mundo que seja melhor do que ver o que há fora da janela.


E que, a próxima vez que falar contigo te vou dizer que estou bem, sem hesitar.





Redigido por: SusanaCMMelo



sábado, 18 de junho de 2016

Mudam-se os tempos.

Pergunto-me vezes sem conta sobre até onde devemos deixar as coisas ir.

Se podemos traçar a nós próprios caminhos diferentes e possibilidades diferentes a seguir. Se nos é legítimo de vez em quando sermos um bocado egoístas. Batermos o pé e dizermos não.

O meu ex-namorado costumava dizer que sou demasiado boa com as pessoas. Que não sei dizer que não e que por ser tão boa quem se aleija sempre sou eu. Tinha razão. E por ser tão boa com ele acabei trocada. É nisso que me questiono bastantes vezes. Mas de toda a vez que tento ser um pouco má acabo sempre ouvindo a mesma história. “Não ganhas nada em ser assim”. Não sei o que ganho então. Percebo agora os erros que cometi no passado e o porquê de todos os relacionamentos passados terem saído fracassados em todos os piores sentidos. Não que eu fosse má como as cobras, não que fizesse o mal. Muito pelo contrário. E esse é o meu mal. Onde será que devemos pôr um ponto final? Quando será que devemos dar um grito e bater o pé?

Sendo que sou apologista de mulheres calmas, com sentido de humor, perspicazes e divertidas quando têm que o ser, mas no fundo sempre humildes. E sendo que tento seguir esse padrão. Será que existe realmente um ponto em cima do i desesperado nessas mulheres? O papel delas passa por calar e dar desprezo a um homem que amam ou gritam e debatem-se até não poderem mais?

Tenho uma amiga que como eu gosta da sua independência. Essa mesma mulher diz-me que é independente e como tal não precisa de ninguém para ser feliz. Essa mulher é o hino das mulheres. E só nisso todas devíamos ser um bocadinho como ela.

Eu acredito em amores para a vida, no “felizes para sempre”, ainda que discutam. Acredito que no meio de tanta promiscuidade que há por aí ainda haja alguém de verdade. Um homem em mil e uma mulher em mil que acreditem no amor. Aquele amor que hoje em dia já não se ouve falar. E acredito que esse homem e essa mulher um dia se possam encontrar, mas rezo para que não se deixem sugar pelo mal que por aí há. Acredito que num dia ou numa noite qualquer se encontrem por acaso ao virar da esquina. Acredito em amores a cem porcento correspondidos, em que independentemente das feridas passadas possa haver paz e harmonia, tudo em sintonia com o amor e a fidelidade.

Mas acredito também que um coração partido seja impossível de ser consertado. Porque vai desgastando, desgastando, desgastando, até sobrar apenas a vontade de amar mas ao mesmo tempo o medo de amar. E o medo fala mais alto porque adveio do mal. E aprendemos melhor com lições rígidas e pratos partidos do que com as poucas rosas que recebemos. O medo toma-nos. A insegurança vive-nos. Não se cola o que em tempos se partiu. Não se pega nos cacos e faz-se de conta que nada aconteceu. Os cacos cortam, e lembrarmo-nos sequer de que algo em nós foi partido sangra-nos ainda mais.

Eu devia ter vivido no tempo em que os senhores eram senhores e as senhoras senhoras. No tempo em que realmente se sabia dar valor ao que se tinha, ou que se estava prestes a ter. Devia ter recebido rosas ao portão e cartas no correio. Devia ter tido o prazer de ser conquistada por um homem que realmente me quisesse. Noutros tempos, noutras circunstâncias e de certo com outras vontades.

O amor não existe hoje em dia. Não há Romeu nem Julieta hoje em dia. Não há ninguém que ame tanto alguém a ponto de não suportar estar sem esse alguém. Ninguém se deixa ser tão ingénuo, tão ultrapassado. O que gostamos mesmo hoje em dia é de erguer a cabeça e lançar a cana de pesca de toda a vez que algo nem sequer chega ao final de fracassar. A cara vira com qualquer passarinho e os olhos comem à velocidade da luz e o respeito suposto fica na suposição. Há sempre alguém melhor, mais bonito e mais acessível. Tentar custa muito, amar na verdadeira definição da palavra é quase que impensável. Já não se sente, não se pensa. Homens usam a cabeça inferior em vez da superior e as mulheres já nem massa cinzenta têm.

Sou de uma geração perdida, que não sabe lutar pelo que quer e que desconfio que nem saiba o que quer. Pertenço a um mundo onde o amor tem uma nova definição e cujo se encontra em cada esquina.


No entanto, cada esquina é uma esquina perdida.



Redigido por: SusanaCMMelo



quarta-feira, 20 de abril de 2016

Apaixonei-me e nem sei como.



Chega uma altura em que já não sentes as borboletas da adolescência. Nem o corpo a tremer da ansiedade constante. Nem a curiosidade do que vem a seguir.

Não sei o que sentes ao certo. Talvez a felicidade de algo que sabes que pode durar. Independentemente de quem tenha estado e já não está. De quem tenha ido e confias que não volte mais. Já não dás o teu mundo, nem prometes outros mundos. Sabes o que tens e o que vales e isso chega. Chega uma casa com paredes arranhadas. Chega abrir uma janela para o sol entrar. Tudo porque sabes que antes de ti houve outro mundo. Tal como sabes que tu já tiveste outro mundo. E passas a aceitar isso. E o mais incrível é que o entendes.

Sabes o desgaste do que falhou. Sabes o desgaste do que não serve mais. Seja porque for. E aceita-lo.
Apaixonei-me e nem sei como.

Nem sabia que era capaz de tal.

Apaixonei-me por alguém com cicatrizes mas que ainda assim, me consegue fazer sorrir. Nem eu sabia que em alguma divisão pudesse caber tanta cicatriz. Talvez por sabermos que em algum lado pode haver alguém disposto a dividir as nossas cicatrizes e a fazer-nos deixar de calcar nos nossos calos.

Apaixonei-me por alguém a quem vejo dores antigas quando lhe olho. E o melhor disso, é poder-lhe ver o reflexo da esperança. Abrir o coração é difícil, baixar as muralhas é ainda pior, mas saber que o fazemos a alguém que nos faz o mesmo de volta, tira-nos as palavras.

Apaixonei-me e nem sei como.

Apaixonei-me por alguém que sei que foi moldado por outra mulher. Apaixonei-me por alguém que sei que se perdeu algures no caminho. Apaixonei-me e não sei lidar com isso. Mas no meio de tudo de alguém se apaixonar de novo, vem a força reerguida, reunida.

Escrevi algures aí que quando estamos partidos já não amamos facilmente, como os outros. Escrevi que quando quem está partido ama, ama densa e dolorosamente. E é verdade.

Amar assusta. Sussurar “amo-te” torna-se na maior prova de nós mesmos. Assumirmos a alguém que o amamos quase que dói. Como se fosse um contrato qualquer com o diabo, de que quase fugimos a sete pés. E por muito que queira, há alguma coisa que ainda dói. Talvez o medo de o fazermos, de que por algum motivo alguma coisa nos fuja. Queremos meter o outro em cima da árvore, aconchegado no ninho, algures onde nada nem ninguém chegue.

Ter amado e ter sofrido consegue doer sempre.

E amar de novo, no meio de tanta escuridão por que passámos pode doer ainda mais.

Apaixonei-me mas não sei como.

Talvez porque sempre acreditei no amor, de que é impossível estarmos nesta vida sem alguém, por muito completos que estejamos.

Apaixonei-me e não sei o que fazer. 



Redigido por: SusanaCMMelo



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Lembra-te.



Um dia vais ser a lição de alguém. 

Um dia vais amar tanto alguém que vais acabar por matar o que vocês têm.

Um dia vais matar quem tens ao lado por em tempos te terem morto.

E um dia vais ensinar a amar quem nunca pensou ser capaz.

Um dia vais querer dizer a algúem que o amas porque é o que sentes. Mas vais perceber que nunca o dizes por medo.

Um dia vais pedir a alguém que quando encontrar o próximo amor da sua vida se lembre de ti.

Porque acreditas piamente que deixaste um bocado de ti na falta do bocado que levaste do outro.

Um dia vais dizer “lembra-te do que te ensinei” porque sabes os danos que causaste.

Mas sabes melhor o dano de que tu és.

Um dia vais cair em ti e vais saber que não há volta a dar. Que um corpo feito de amor é um caco de vidro ele mesmo.

Vais saber que estás estragada, podre.

Vais saber que não há volta a dar mas mesmo assim anseias por amar.

Vês o amor em cada esquina. Em cada olhar de desejo.

Iludes-te. E de todas as mil vezes estragas-te mais um bocado.

Um dia acreditas a cem por cento que aquela relação vai ser a tal. Duradoura. Forte.

Mas mal sabes que abana com o vento.

Fraca, frágil.

Vais achar que ficaste forte, que és indestrutível. 

Mentira.

Vais descobrir aí que és a lição de vida de alguém. Porque já não amas facilmente como os outros.

Quando amas, amas densa e dolorosamente. É um amor tão denso que se torna obscuro, assustador.

E de tão partida que estavas, acabas partindo alguém. E tu toda te partes mais.

Tornas-te no karma dessa pessoa.

Ensinas com o mal e não com o bem. Porque tentaste mas estás demasiado podre.

Podre no chão.

Um dia vais ser a lição de alguém e eu já sou a tua.

Sou a lição de quem não soube lutar.

Sou a lição de quem aprendeu a amar, de alguma forma, um corpo quebrado.

Sou a lição de quem não se soube quebrar. E precisou de ser quebrado.

Redigido por: SusanaCMMelo

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Desculpa.

Tenho uma amiga que diz que me preocupo demasiado com o passado das pessoas.
Talvez.
Porque talvez sempre pensei que queria ser a melhor possível para quando o amor da minha vida surgisse.
Hoje peço desculpa.
Peço desculpa ao amor da minha vida pelas bocas que beijei, pelos corpos que me tocaram e pelas mentes que iludi.
Peço desculpa por me ter deixado consumir de tal modo, que hoje já não acredito em ti.
Não acredito no dia em que apareceres.
Não vou acreditar quando me sorrires por entre todos os outros sorrisos.
Vou achar que és mais um como os outros todos.
Vou achar que afinal não existes enquanto podes muito bem estar a cruzar a próxima rua e por infelicidade do destino não ser nesse dia que nos cruzamos, ou por infelicidade do mesmo ser nesse dia que me olhas mas por receio desvio o olhar.
Peço desculpa, amor da minha vida, pela falta de confiança que tenho em ti, que tenho em mim e que tenho no quer que seja que fale de amor.
O amor é uma merda.
Desculpa pelo coração partido, pela indiferença e pelo menosprezo.
Desculpa por não conseguir confiar e por não ter vontade de tentar.
E podias tu muito bem ter beijado a mesma quantidade de bocas que eu.
Peço desculpa porque tentei ser a melhor em vão.
Tentei ser a melhor para hoje ser a pior.
E não há homem que queira um coração tão destroçado e desacreditado.
Nem eu tão pouco quero algum homem.
Queria a ti.
Mas tu tardas em chegar.
Ou já chegaste com a mesma rapidez com que foste embora.
Mas se assim foi dá a volta.
Eu acreditei, é verdade, em amores impossíveis.
Acreditei nas promessas cheias de cérebros vazios.
Tenho o coração pisado e os joelhos em sangue.
Durmo com a impaciência e a impertinência é a amante.
O carinho mudou de morada e o orgulho é o vizinho do lado que janta comigo todos os dias.
Desculpa, amor da minha vida.
Por ter dado tanto de mim a quem merecia tão pouco.
E por te afastar quando me apareceres.
Só te peço que tenhas a força de ficar e de me provar que o que estiver destinado a ser, será.
Sem mundos e fundos, só as mãos vazias de alguém que tal como eu se cansou das mentiras e dos jogos e decidiu que era a altura.
Altura de não sei bem o quê que todos nós achamos que temos.
Porque todos temos pavor de acabar só.
Então desculpa.
Porque te pensei ver em todos os homens que escolhi.
Porque de um modo ou de outro me deixei massacrar, ao ponto de hoje já nem te querer encontrar.
E se alguma vez te encontrei e te perdi, desculpa pelo que fiz a ti.
Desculpa amor da minha vida, pela minha hipocrisia.
Por exigir de ti nem aquilo que tenho em mim.

Redigido por: SusanaCMMelo




segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Demasiado tarde.

Eu reparei quando o teu sorriso mudou. Quando a tua vontade diminuiu. Percebi que a tua paciência era menor e que a tua ambição por nós tinha desaparecido. "É impressão tua, está tudo bem", dizias - me. Como se me conseguisses mentir esperando que eu acreditasse. Sabendo - te eu melhor que qualquer pessoa até à data. Ou assim o julgava.
Fizeste - me derreter barreiras e muros para me dares um soco no estômago. Fizeste - me acreditar em finais felizes e nas promessas de um amor verdadeiro. E eu apenas te pergunto do que te serviu. Lembro-me da primeira vez que te quis gritar que te amo porque já não mais me cabia no peito. Lembro -me da primeira vez que me sussurraste ao ouvido que me amavas. E como não acreditar que os opostos se atraem.
Lembro-me do dia em que colocaste a tua mão no meu queixo, levantaste a minha cabeça, olhaste -me nos olhos e me disseste que era a tua vida. Nunca conjuguei tão bem um verbo.
E Deus, como eu esperava que sucedêssemos. No meio da hipocrisia e devastação banais de hoje em dia, ter - te era o meu maior orgulho. O meu maior feito. Mas dá para perceber o porquê de dizerem para não colocarmos ninguém como o topo do nosso triângulo de felicidade. "Quanto maior é o salto, maior é a queda", dizem. A sabedoria do povo nunca enganou.
Lembro-me como se fosse ontem dos gestos de carinho nos primeiros meses, das juras infinitas de devoção. Tontices dignas de um tonto apaixonado. Ou se calhar de alguém que sabia bem o que fazia.
Na última vez que te vi, olhaste - me de uma forma diferente das anteriores.
Peguei em mim e no orgulho que tantas vezes guardei no bolso por ti e virei costas. Chamaste o meu nome com voz rouca. Demasiado tarde. Era mais que altura de pegar no meu amor próprio e lhe sarar as feridas. Demasiado tempo na mesma paragem com demasiados danos faz-nos esquecer quem realmente somos. E juro que por ti tentei ser o melhor de mim. Mas tentar por tentar não serve. Não me bastava que me virasses as costas em cada discussão ou que ignorasses as minhas lágrimas. Quando eu era a melhor que podia. Ou conseguia. Demasiada dor molda - nos. Às tantas já não sabia quem tinha ao lado. É como se me tivessem apagado a luz. Não sei se na verdade somos feitos do mesmo cimento mas que mudámos, mudámos. E ninguém quer o que não conhece. E é confuso olhar para ti e sentir que te conheço mas ouvir - te e sentir que te possuíram. É aflitivo afinal afirmar que te conheço. É a dor colada na pele. É o coração arrancado do peito. Tantas horas, minutos e segundos a teu lado. Tudo para no final olhar para alguém a quem apenas reconheço a mesma beleza física inicial. Um horrível contrasenso.
Por ti atingi o impossível mas o impossível lançou -me do penhasco. E se te pudesse explicar às outras pessoas. Àqueles que não nos vêem com os olhos do conhecimento verdadeiro, com os olhos da compaixão. Com os olhos da humildade. Porque nada nos faltava mas ao mesmo tempo não tínhamos tudo. E preferia-te descrever como ilusão a desilusão mas o dicionário tem os seus maus dias.
Dias contados foi o que nos deram por muitas vezes. E ignorámos na inocência de quem ama. Ou de quem finge. O que não era suposto tornou-se na maior das contradições. E espero que saibas do que falo. Se bem que há muito que deixámos de nos entender.
Deixei de fazer questão para ver até onde a nossa questão ia. E quem diria que no amor se tem que jogar limpo. Quando sabemos melhor que o mundo todo que no amor tudo vale. E pensar que pensei que valesse a pena.
Demasiado tarde.
Lembro-me do dia em que me perdeste. E todos os dias me lembro de como nunca me reconquistaste. Na vida temos que amontoar conquistas. A minha foi da certeza de que melhor eu não podia ter sido, até ao dia em que tive o teu pior. Porque o que sempre pedi foi um amor correspondido e cansada estive eu de um amor falhado.
Demasiado tarde, disse-te eu. E fiz com que te arrependesses do dia em que me iludiste e me desejasses ter de volta mais que tudo. Mas se todos precisamos de alguém que nos ensine a lição, que eu seja a tua. De certo que alguma coisa de correta eu devo ter ensinado. Nem que tenha sido por via dos factos. Demasiado tarde, meu bem. E que tu melhor que ninguém possas ter conhecido todas as visões de mim, a quem poderias garantir que a tua última seria de me veres a ir embora. Deus queira que tenha parecido tão cinematográfico como o imaginei. Porque Deus sabe.
Devíamos ter aprendido a querer-nos doutra forma. Uma mais saudável e não tão urgente. Uma que não pusesse a nossa sanidade em causa. E pedaços arrancados e roubados um do outro para nunca mais serem devolvidos é fácil. Difícil é quando te lembrares que te faltam os motivos. Demasiado tarde. Demasiado tarde foi quando percebi que me entreguei nas mãos erradas. E demasiado tarde foi quando tive a coragem de não te amar mais, mesmo que mergulhada em hipocrisia.
Demasiado tarde, meu bem, demasiado tarde.
Demasiado tarde para o que devia ter sido mais cedo. Demasiado tarde para continuar a contar pelos dedos a quantidade de vezes que te dignaste a lutar por mim. Ainda assim, dois passos dados e uma voz rouca. E eu que apesar de tudo pensei ser merecedora de mais. Uma sonhadora ambiciosa, talvez. No entanto não deixou de ser demasiado tarde. Mas na ida para o meu mundo fecho os olhos e relembro-me da altura em que fazias súplicas para que o nosso contacto visual não se difundisse. Súplicas infinitas. Chegaste-me a chamar de tua musa. E distraidamente me vem um sorriso ao canto da boca. E distraidamente me apego ao pouco que me resta de bom de ti.
Uma dor que não te desejo nem a ti.
Coração arrancado mas orgulho intacto. Demasiado tarde para nós os dois.


Redigido por: SusanaCMMelo