domingo, 23 de agosto de 2015

Para o bem e para o mal.



Pouco ou nada me deitei no teu colo mas contrariamente a isso ouvi todas as tuas canções. Fazias questão de manter sempre a mesma ordem e o mesmo tom de voz. Todos os dias o mesmo. Todos os dias igual. E para mim era bom saber que nem que fosse só ali tu estavas lá.

Nunca te tive por inteiro e sempre me acomodei com isso. Sempre me mentalizei com o facto de não me fazeres falta.

Mas fizeste sem sabermos.

Cair e esfolar os joelhos a todos nos acontece pelo menos uma vez. Mas é muito mais fácil quando temos quem nos dê nas orelhas e nos ponha betadine nas feridas.

Eu nunca tive isso.

Não me magoa não ter tido porque fez com que fosse eu própria a cuidar das minhas feridas. Sem ter que ouvir ninguém nem ter que ouvir o sermão de usar algodão em vez de papel para o betadine. Um pouco de saliva e já ia. Aprendi a ser assim. E em tudo fui sendo assim. Eu por mim, sem esperar auxílio. Uma cabeça erguida a tempo inteiro. Sem nunca precisar da típica palmadinha nas costas.

Eu nunca te tive. E saber que tiveste tão perto mas tão distante. Nas tuas longas horas solitárias e vazias. Aprendeste um culto qualquer em que apenas existia o tu.

O tempo nunca parou, e cada vez mais fugiu de nós. O tempo pegou-me ao colo e fugiu de ti.

Inúmeras vezes me vieram com perguntas menos discretas às quais a minha resposta era o mínimo desprezo. E sabia que era o que os outros falavam nas minhas costas. E sabia o quanto me olhavam e como. Mas nunca quis realmente saber. Como também nunca quis saber se há quem me entenda ou não.

Falar de ti nunca fez parte das minhas conversas. Falar de ti nunca foi uma conversa. Foi como um segredo que não era segredo. Foi um assunto em repouso durante sempre. É mais fácil assim. E se tu foste pelo fácil, porque não te dar essa homenagem? Não que eu te queira fazer sentir na pele, mas tu sabes os teus erros e as tuas falhas. E Deus melhor saberá se estás a pagar por eles ou não. Eu realmente também não quero saber.

Não é normal, nunca foi e nunca me afetou. Já pensei em ti com lágrimas nos olhos, mas são tempos idos. Há quem saiba e quem me diga que não devo ser assim, mas como não o ser se as circunstâncias não mudam.

Não me vitimizo, assim como não te atendo todas as chamadas nem respondo a todas as tuas mensagens. Penso como seria se do nada não soubesse mais de ti, se deixasses de ter as típicas pancadas de de vez em quando, sem razão aparente, desatares histericamente a ligar-me. Penso como seria não te ter mais a sentir a minha falta de vez em quando e a inevitavelmente seres uma parte de mim. Porque dizem que rio como tu. Antes tu ainda risses como eu… e sem eu querer os meus olhos ficam nublados. E deus me perdoe por todas as vezes que me arrependo de ter uma parte sensível pseudo-morta.

Pergunto-me vezes sem conta se deveria deixar ir, se deveria deixar de pensar em todas as tuas escolhas como escolhas, consequências e erros. E sem pensar em nós como uma delas. Pergunto-me no que qualquer outra pessoa faria na minha situação. Pergunto-me se o facto de eu ser assim contigo se deve a ainda sentir uma réstia ou qualquer coisa assim de amor que deveria sentir por ti. Eu não sei.

A verdade é que para o bem e para o mal, se não fosses tu eu não era assim, muito provavelmente eu nem existiria, mas conforme comecei esta frase, para o bem e para o mal… se não fosses tu.

Quero pensar em ti e nos meus sentimentos como um vulcão adormecido, no melhor sentido da expressão. Como algo onde ainda poderá haver sentimentos, porque como não haver amor? Eu não sei… tenho betadine ali no armário, mas como seria de esperar já não preciso de o usar… não é que as feridas curem por si, é que simplesmente já não me deixo cair no asfalto. Quanto muito dou um mau jeito ao tornozelo ou ao que seja. Mas já não sangro. Já não me descomponho para me compor. Sou composta quase que por natureza. Por natureza mesmo. Porque nunca esperei que me fosses agarrar pelos braços e me levantar, mesmo sabendo que nunca estarias lá para isso, não fiquei lá sentada na esperança. Na verdade, deixei de me deixar cair desde logo muito cedo. Mas lembrei-me sempre do teu tom de voz calmo, mesmo que fosse só naquele momento, nos tempos certos e nas letras corretas.

Se alguma coisa me deixaste, foi a lição de como não ser, mas de como ser também. O tal para o bem e para o mal.

Eu nunca te tive, mãe.




Redigido por: SusanaCMMelo










quarta-feira, 20 de maio de 2015

Agridoce.



Ter-te e não te ter é sinónimo de olhar para ti e vir-me o medo de que dum segundo para o outro mudes aquilo que sentes por mim. Sei que não escolhemos de quem gostamos e como gostamos e sei que é mais um daqueles medos que não são racionais, como tantos outros. Mas o que seria de mim se fosse tão racional? Se o que eu sinto fosse tão racional?
Ninguém fez de nós as pessoas certas, nem tão pouco as pessoas certas um para o outro. Ambos sabemos melhor que ninguém que somos errados. Sempre fomos. Errados e do avesso. E ainda ao contrário. Como a mistura do doce e do salgado. Algo a que muitos chamam de agridoce. 
Nem agridoce, nem doce, nem salgado.
Um nada exclusivamente perfeito e único. E podíamos os dois num dia qualquer querer atingir um só pólo. Querer o doce do açúcar ou o salgado do sal todos para nós, numa medida só e duma maneira acertada. Como numa receita de cozinha. Mas ao contrário do que muita gente diz, o amor não vive de receitas. Eu não escrevi a receita de como me apaixonar por ti, nem tu deste as dicas para tal. Contudo vivo com isso. Porque tenho que. E mesmo que não tenha, eu assim me deixo ficar. E é este deixar-me ficar que me assusta. E se tu não te quiseres ficar? Se num dia qualquer acordes com menos vontade de mim? Se me olhes e me aches a mulher mais feia ou nem vontade tenhas de me olhar de todo. Se não tiveres vontade de te voltar a deitar comigo. Não me assusta que não me dês o boa noite, que não tranques a porta ou que deixes o tampo da sanita para cima. Assusta-me que mudes os teus vícios e manias para que eu deixe de te ver. Para que eu deixe de te conseguir decifrar. De que me serve não conhecer os teus vícios se conheces os meus.
De que me serve ser a mulher por quem os teus olhos não olham mais, se é o oposto disso que quero ser para sempre?  Dá-me apenas o único para sempre possível que é o teu. Sem extras e sem favores. Dá-me a tua melhor colecção de instantes e deixa-me reinventá-la. Como quem reinventa um novo parágrafo ou um barco. E desengane-se quem acha que reinventar um parágrafo é fácil. Cada palavra e cada vírgula estão colocadas num local estrategicamente perfeito. Então dá-me. Enrola num papel de embrulho ou num saco de plástico e dá-me. Como quem dá o mais simples pedaço de papel, estimado como se fosse um pedaço de pergaminho. Eu cuido, amo e aplico. E quando vieres fica. Fica como quem quer, como quem ama. Fica como tens ficado. Amando ou não. Querendo ou não. Mas fica. Porque querendo ou não, vamos amando.





Redigido por: SusanaCMMelo



quinta-feira, 7 de maio de 2015

Não fosse o diabo tecê-las.

E nada era como eu tinha imaginado.
Tu não eras um príncipe e eu nem tão pouco era uma princesa. Não partilhávamos o pôr-do-sol nem me oferecias flores. Não íamos ao cinema nem a jantares românticos. E aquilo que para muitos era errado e impossível de resultar para nós fazia todo o sentido. E eu gostava de ver o teu esforço em me arrancar sorrisos a toda a hora, mesmo que para isso não tivesses que te esforçar muito. Era uma coisa genuína. Nós éramos genuínos. Sem pressas e sem empurrões apenas preocupados em trilharmos um caminho só nosso. E sem qualquer destino. E eu posso-te dizer como eu adorava isso. De tão incerto que era tornava-se certo. E eu não queria saber do que os outros diziam desde que te tivesse a meu lado. E tinha. E a vida assim tornou-se normal. Mesmo sem horas marcadas, sem dias marcados, sem rotinas traçadas. Sabendo que te via hoje mas podia não ver mais durante 2 semanas. Mas sabendo que daqui a duas semanas a tua alma pertencia-me na mesma. E sem saber como nem porquê tinhas o meu coração e tudo de mim. E eu não me preocupava minimamente se deixavas o meu mundo cair porque tinha na confiança que não o permitirias.
E de tão raros que somos eu estimava-nos de uma forma nunca antes vista.
E guardava aquilo que sentia por ti dentro de uma caixinha fechada a 7 chaves, não fosse o diabo tecê-las.
Não fosse o alheio invejar-me.
Porque dizem que é isso que se faz ao amor da nossa vida, protegemo-lo de possíveis abutres. No entanto nunca te enclausurei, e essa era a melhor parte. Saber que voltavas para a minha mão por escolha própria. Saber que era a mim que escolhias.
Deixar-te livre e voltares bastava-me.
Talvez porque para mim era também a prova de amor que eu estava disposta a dar.
Selvagem, sem quaisquer amarras.
Sempre voltando um de encontro ao outro. E não há nada neste mundo nem em todos os outros mais leve que isto. Como a vida na sua imensidão se tornava fácil assim. Se tornava suportável.
 E era só disso que eu precisava.

De uma alma leve e selvagem tão idêntica à minha.





Redigido por: SusanaCMMelo



segunda-feira, 4 de maio de 2015

Vi-te por aí, anjo.

Vi-te tantas vezes por aí…

Sempre dona do teu nariz, sempre confiante no teu andar. Agora sim reparo nos olhares de desejo com que muitos homens te olham. 

Para mim nunca fez sentido querer estar com alguém permanentemente nem deixar-me levar por qualquer tipo de sentimento que englobasse mais do que uma simples conexão de amizade, se tanto. Mas agora eu percebo que qualquer coisa mudou. Percebo que os olhares dos homens que te desejam me incomodam e que a insignificância que me dás me mata. 

Fazes-me sentir fraco e absurdo. 

Fazes-me procurar-te em cada quarto que visito, em cada aroma que sinto. 

Como se cada quarto que eu visitasse fosse o correcto. Como se cada quarto tivesse o aroma e o ambiente ideais. Como se cada uma daquelas mulheres tivesse o ideal para serem minhas. 

E tão depressa as quero a todas como não quero nenhuma. 

Fazes com que te procure em todas elas. Mas por muito que eu negue há qualquer coisa que te faz ser tão tu. 

E cerro os dentes e os punhos quando te ouço rir perto dele. 

E dá-me uma vontade louca de mandar o mundo abaixo quando te vejo por aí. 

Saber que tive tudo e tudo perdi. 

Que se lixe o karma quando te podia era ter a ti. 

Mas parece que ele veio para ensinar, não é? 

E de pensar que tantas vezes me avisaste indirectamente e que eu todos esses avisos percebia mas ignorava. Sempre achando que dava conta de todas as aldeias esquecendo que tinha uma cidade na minha mão. Estraguei a mulher que eras mas vejo que te recompuseste e te ergueste melhor ainda. Não que te quisesse ver mal mas apenas minha. 

Fazes-me sentir doente, insano. 

Dei-te o pior de mim e deixaste a descoberto o que havia de melhor, que eu nem eu sabia que existia, mas e agora, dou esse melhor a quem? Quando a única pessoa a quem quero dar é a ti. 

Tantas barbaridades, lamentações e caminhos vazios. Por cada uma delas uma garrafa de álcool e para arrebatar um coma alcoólico. E se for agora que te vejo novamente ao pé de mim, que ele perdure para sempre. 

Junta este a todos os outros erros, anjo meu.



Redigido por: SusanaCMMelo





terça-feira, 28 de abril de 2015

Bom dia, amor

Se me perguntares como foi não te sei dizer.
Sei que gosto do sorriso que soltas ao me ver, do beijo na testa que me dás antes do beijo na boca, do carinho com que passas as tuas mãos na minha cara e depois me apertas contra ti. Gosto da forma como gozas comigo tão depressa como falas a sério e do ar que fazes quando finges que estás sério mas depois te ris. Gosto da tua espontaneidade, da tua expressividade, de tu seres tão tu e me deixares ser tão eu. Gosto da tua sinceridade, do facto de te irritares por eu amuar e não falar mas mesmo assim seres a pessoa mais paciente do mundo, gosto da tua calma e da tua maturidade, de quando me confrontas e não descansas enquanto não obtiveres uma resposta. Gosto do teu sentido de humor, da tua boa disposição, da tua boa vontade e do esforço que colocas em nós. Gosto da forma como gostas de me mostrar ao mundo, como quem diz que tem a mulher dos seus sonhos a seu lado. Gosto de ti pelo que és e gosto de ti por conseguires tirar o melhor de mim. Gosto de ti porque me mostraste um lado da vida que eu há muito tinha cerrado. Gosto de ti porque foste o único capaz de subir as muralhas por mim e lutar contra os meus demónios sem nunca desistir. Gosto de ti porque por muitas definições e explicações que eu tente dar ao que sinto por ti, nunca consigo encontrar nem metade das palavras que quantifiquem o que sinto. És o meu melhor amigo, o meu pilar, o meu mais que tudo. És aquilo que qualquer mulher sonha ter a seu lado, e apesar de muitas não encontrarem eu encontrei. Jesus, se encontrei… mais do que me mostrares um lado que eu tinha cerrado e que acreditava não vir a descobrir sequer, mostraste-me um mundo novo, ensinaste-me a dar o braço a torcer, a ser mais acessível e flexível, ensinaste-me a amar e muito mais que isso… ensinaste-me a deixar-me ser amada. Isto porque precisamos de amar e ser amados mas a ideia de amar alguém era simplesmente assustadora. A ideia de nos expormos, de estarmos à mercê dos enganos, das traições e das rejeições; o facto de termos de lidar com o passado e com os medos de alguém; e mais que isso, lidarmos connosco próprios em ordem a nos conseguirmos entregar, todos os dias me assustava. As experiências e os erros do passado moravam precisamente do lado de fora da porta e apesar de depender unicamente de mim ultrapassá-los, era como se eles gostassem de ser sem-abrigos à minha porta. O medo que temos das promessas quebradas, das palavras tão loucamente proferidas mas tão cheias de nada, dos olhares falsamente apaixonados e dos corações tão incrivelmente mentirosos é difícil de quebrar. Amar não é andar sob um manto de pétalas de rosa. Amar é andar nas ortigas e nos espinhos num túnel escuro e mesmo assim acreditar que há uma luz lá no fundo a alcançar. É o querer dar sem esperar retorno mas ao mesmo tempo é o saber que para dançar tango são precisos dois. É a loucura de por vezes acreditarmos que conseguimos dançar sozinhos aquilo que está destinado a ser construído e solidificado pelos dois. É o pintar o mesmo quadro juntos. E eu podia ou não acreditar que existe alguém destinado para mim. Tal como podia ou não acreditar que essa pessoa poderia ou não vir a cruzar a minha vida. A verdade é que nem sempre se cruza nas nossas vidas quem está destinado a ficar connosco. Ou simplesmente não temos a sorte de encontrar alguém que encaixe na nossa vida. Mas hoje eu sei que tenho essa sorte. Na verdade, eu sei que sou a mulher mais sortuda do mundo.
Não há nenhuma frase estruturada que seja possível dedicar-te. Não há um poema, um livro, nem sequer uma colecção inteira que possa descrever o que somos e o que sinto por ti. Não há nada neste mundo que quantifique ou que explique aquilo que somos e que temos. Não há nada que se equipare a nós. E isso é o que mais gosto em nós. O saber que nós próprios construímos o que temos e que o que temos é algo único, incomparável e inexplicável. É precisamente aquele “amar-te assim tão perdidamente” aliado do amor que “é fogo e arde sem se ver” mais não sei quantas coisas nunca antes postas em palavras. E o que eu sei é que não poderia nunca confiar em ninguém como confio em ti. Conheces os meus pensamentos antes de olhares para mim e as minhas respostas antes de falares. És quem me dá a mão, o ombro e quem me segura quando oscilo. Mesmo eu querendo ser forte o tempo todo tu fazes questão de te certificar que estou bem. Ainda está para vir alguém capaz de explicar o que isto é mas até lá só nós dois nos entendemos. E mesmo no dia em que venha alguém com ar de quem tudo sabe tentar confundir-nos os sentidos, nós mandamos essa pessoa para o bilhar grande. E é sobretudo isso que mais gosto… a nossa incrível conexão, a nossa intimidade. É o não precisarmos de recorrer a ninguém para sabermos o que se passa entre nós próprios. É o falarmos abertamente um com o outro e sermos unicamente A e B, sem deixar que C’s e D’s se intrometam ou que nos influenciem, seja sobre o que for. Acho que essa é uma das nossas maiores cartadas. Desde o início que nos construímos para ser um todo, pensar em uníssono e trabalhar em uníssono. Uma balança equilibrada, uma laranja completa. Deixou de ser cada um a jogar por si e passámos a jogar como um todo. Eu protejo-te, tu proteges-me.
Se tivesse que explicar isto em poucas palavras acho que recorria à mais simples das comparações... reabilitaste-me. Com o teu amor, a tua honestidade e o teu tempo retiraste de mim todas as ressacas, feridas, medos e inseguranças e todos os nós no peito. És o meu anjo da guarda, o meu herói, o meu melhor amigo e o amor da minha vida. Trouxeste paz e bem estar à minha vida. Um obrigada não chega mas espero que todo o meu amor e o meu empenho compensem. Prometi todos os dias lembrar-te do quanto te amo e do quão importante és para mim, então aqui está a lembrança de hoje. Anda-me dar um beijo, estou na cozinha.





Redigido por: SusanaCMMelo




terça-feira, 31 de março de 2015

Amor com amor se paga

Sabes que sou irritante, impulsiva e orgulhosa. Que mesmo quando a última palavra não é minha, eu faço com que seja. E eu sei que de todos os meus defeitos, aquele que mais te irrita é mesmo este... a minha capacidade de te tirar do sério por dar a última resposta e querer ter sempre a última palavra. Aturas-me, não sei como. E também não quero saber. O que aturas de mim aturo eu de ti na mesma quantidade. A tua cabeça oca não dá para mais. Viramos mesas e partimos janelas. Acho que é por isso que isto vale a pena. Somos demasiado iguais e demasiado diferentes. Mas isso não interessa nada. Sabes que para mim, de nada vale falar sobre isso. Nao te tenciono mudar embora digas que por mim já o fizeste. São coisas como essas que me fazem responder-te “acontece”. Odeias a forma como o digo, queixas-te que sou fria e que o meu tom de voz muda. Sabes que não quero promessas de para sempres, sabes que não acredito em contos e que para mim o que conta é o agora. Já nem me preocupa o depois. Mas sabes que mais que tudo, eu gravo muito bem gravado o antes. E lamurias-te vezes sem conta de que de nada me esqueço, de que te jogo tudo o que me apetece à cara. Mas conformo-me com a ideia de que todas as mulheres o fazem, todas nós temos uma caixinha no nosso peito chamada “rancôr” que abrimos de vez em quando e tiramos de lá as mais variadas idiotices que alguém nos fez. Como não a poderíamos ter? A verdade é que me conheces melhor que ninguém, conheces o meu lado bom e conheces este lado. Chama-lhe “lado mau”, chama-lhe o que queiras. Pouco me importa de como o classificas.  Sei que detestas quando no meio de uma discussão me exalto e te levanto a voz e quando te dou a hipótese de saída. E por muito que eu odeie que tu odeies não o posso evitar. Para quê evitá-lo? Assusta-me que conheças os meus demónios, mas mais medo tenho eu de que consigas ver através do meu escuro, do que deixo por dizer. Sei bem qual é a tua última reacção antes de eu bater com a porta do carro e ir-me embora, sei qual é a tua última reacção antes de eu voltar as costas e sair pela porta de casa e sei também qual é a tua reacção quando te cansas de tentar arrancar-me os porquês. Sei o que fazes quando eu saio, sei que gritas e atiras tudo contra as paredes, que te convences mil e uma vezes de que chegou de vez o fim e não vais mais tolerar nada disto. Sei que fazes juras infinitas de nunca mais voltar para mim, de nunca mais me pôr a vista em cima e de nunca mais sequer me falares. Sei que a raiva te enevoa os olhos mas que é o amor que te faz molhar a cara. Amo que me ames desse modo mas amo-me mais. Digo-te agora com toda a certeza do mundo e toda a força que tenho que se fores te deixo ir, não quero nada que me prenda, que me faça perder a noção do quão pior estou a ser.  Não quero, mas não te empurro. Antes de ires ainda temos muitos i’s para acertar, muitos vasos para quebrar, muitos barcos para virar, meu amor. Sei que já não vou encontrar a melhor versão de mim porque ma roubaste, e confio que se ainda a tivesse te pedia para ficares. Mas amor com amor se paga, sempre te disse.  Sempre te falei que sou de retribuir na mesma moeda. Sempre te disse que funciono como espelho. Será que ouviste? Sempre soube que a tua cabeça oca não iria perceber, que o teu coração de pedra não iria assimilar, então nada melhor que te mostrar. Habituei-me à tua forma de lidar com as coisas, habituei-me à tua forma de ser. Habituei-me a ti. Acho que isto foi a forma de criares um ser já existente à tua imagem. Acho que assim também já está respondida a questão de como me aturas porque tu sabes que és assim. Sabes que o pior de mim é o melhor de ti e agora sim, tentas redimir-te. Então agora diz-me... como é sentir na pele tudo o que me fizeste passar?




Redigido por: SusanaCMMelo



domingo, 25 de janeiro de 2015

Amor-Ódio



Há uns minutos que comecei a sentir que estava a sair do escuro, calmamente e silenciosamente. Pouco a pouco, do escuro passei para o menos escuro e comecei a ganhar de novo todos os sentidos que até agora é como se tivessem estado desligados. Olhos fechados, respiração calma e acertada, batimentos lentos, senti o ar a entrar-me pelas narinas e a chegar aos pulmões, senti o corpo mole, senti o calor próximo de mim. Ainda de olhos fechados inspirei o máximo que pude, aguentei o ar durante três segundos e expeli-o. Senti uma respiração quente perto de mim mas não me mexi. Neste momento já estava tudo claro, tão claro que consegui sentir uma certa angelicalidade. Abri lentamente os olhos. Comecei a apreciar o silêncio, a calma, o bem-estar e percebi que há muito tempo que não me sentia assim. Senti os olhos começarem a fechar-se novamente quando de repente senti o calor de uma mão a percorrer-me o braço. A mão parou no ombro. Do ombro foi até ao pescoço, à orelha e acariciou-me o cabelo. Voltou a descer, e agarrou-me na cintura, até que senti não a mão mas todo o braço a envolver-me e a puxar-me. Senti-me protegida. E senti também uma espécie de luta interior a decorrer em mim. Há uma parte de mim que ama estar aqui, que ama esta calma, esta serenidade, esta segurança. Enquanto há outra que dá qualquer coisa por se levantar daqui o mais rápido possível e correr. Correr porta fora, para bem longe. Neste momento é algo que faria o maior sentido e mesmo que não fizesse, eu dava-lhe esse sentido de coração e alma. Tudo porque é mais fácil dar o coração e a alma a uma certeza que não nos arrancará as tripas e nos fará em cacos do que uma incerteza que nos arranca essas mesmas tripas e nos faz em cacos. A incerteza do que virá, do que será. Mais do que a incerteza é sem sombra de dúvidas o medo. Está em mim combater o medo e desde sempre me foi imposto que tinha que o enfrentar e empunho a espada e o escudo para tudo o que seja preciso, tudo excepto isto. Não está na nossa condição de humanos sabermos lidar com isto, mas está o termos de lidar com isto. Sempre tudo tão concreto e ao mesmo tempo sem qualquer nexo. É um turbilhão de ideias neste momento. As palavras que querem sair e não têm forças. O meu bichinho interior faz questão de as prender, faz sempre. É este filho da mãe que faz com que tudo vá longe demais e não páre por onde deve parar, no suficiente, no satisfaz. Talvez porque nunca me contento com o suficiente mesmo que saiba que não dá para mais. Ou que não devia dar. Queremos tanto que dê que construímos escadas de penas para subir até lá. Odeio-me agora e sempre que me prenda por mais tempo aqui. Sei melhor do que alguma vez soube que esta calma e esta segurança são tão boas para mim agora como será o fogo amargo da discussão mais logo ou amanhã. Quero o impossível, quero o amor mas quero o ódio também. Quero o desejo e quero o desdém. Quero as flores e os vidros partidos. Quero o chocolate e o sangue. Quero a cama dele e a de outro. Como posso eu querer amar alguém que ao mesmo tempo quero odiar? Este turbilhão de pensamentos consome-me e por isso mesmo quero-me deixar dormir mas ao mesmo tempo quero amá-lo olhos nos olhos e depois disso nunca mais lhe olhar na cara. Estou em chamas mas tenho as mãos geladas e estou a tremer. Acordei no paraíso e depressa viajei para o inferno. Quem poderá aguentar isto por muito tempo? Dois anos e três meses eu tenho aguentado e neste momento não quero mais, mas ao mesmo tempo quero tanto mais. Diga-se de verdade, sempre tem sido assim. Ele olha para mim e eu para ele e sabemos os dois no meio desse olhar que queremos mais. É o fogo no meio do gelo. No meio das nossas discrepâncias e faltas de nexo entendemo-nos na perfeição. É a beleza no meio da feiura e da devastação. É o abraço apertado que vem no final da discussão e quando eu deitada me afasto. É o saber orientar diálogos e palavras mesmo quando não há novidades nem mais frases e expressões possíveis. É a capacidade de inventar um mundo de palavras e surpresas quando os nossos dicionários já se acabaram. É a capacidade de reinventar onde outros tantos prefeririam substituir. E é isso que nos distingue, certo? O querermos dar o fora mas estarmos cada vez mais dentro, independentemente do tempo. Independentemente dos berros e virar de costas, é o puxão inesperado no braço e o beijo quente que se segue. A vontade no olhar, o trincar nos lábios, o bater de coração acelerado. Os gemidos e os arranhões no meio dos lençóis. Sinto os olhos a fecharem-se novamente eis senão quando o despertador toca. Faço-o parar antes que me consuma o resto da energia que todo este ódio matinal já me levou. É assim que é suposto ser? Eu pegar em mim e na minha hipocrisia e ir embora como se nada fosse? Fingirmos os dois que nestes instantes que passaram não estivemos ocupados com explosões de pensamentos tão depressa construtivos como destrutivos? É agora que a mão dele me agarra a anca e me faz virar para ele. Os nossos olhos encontram-se e o tempo pára. Não interessa o chegar a horas aos meus compromissos, o tomar o pequeno-almoço ou a hipocrisia que ainda há bocado me assombrou. O que é que interessa mais quando dois olhares se cruzam desta forma? O que é que é amar alguém? O que é que é afinal amá-lo a ele? Não sei e deixei de querer saber. Mudei a direcção do olhar, dei-lhe um beijo na testa, levantei-me, vesti a blusa e vi o homem pelo qual rejeitei todos os outros, mesmo podendo ter todas as opções do mundo e mesmo odiando-o quase todos os dias. Vesti as calças, calcei-me. Dei um jeito no cabelo e passei o rímel. Ajeitei uma última vez a blusa e saí pela porta. Só assim, sem diálogos, sem discussões, sem beijos em chamas, sem abraços demorados, sem olhar sequer para trás. Saio com pensamentos de não voltar e saio rogando-lhe todas as pragas possíveis. Saio pensando no quão suja por vezes deixo a minha alma estar. Saio querendo que ele não exista mais na minha vida porque simplesmente é isso que me apetece agora. Mesmo o tendo no meu pensamento de cinco em cinco segundos. Saio, mas ambos sabemos que esta noite dormirei na mesma cama onde acordei.

 

 Redigido por: SusanaCMMelo